Quem pode opinar sobre o aborto?

A decisão recente de uma das Turmas do STF sobre o aborto gerou muitas discussões nas redes sociais, como sempre acontece. Das tolices que li em defesa da decisão, uma chamou minha atenção. Foi um comentário em um post de um amigo no Facebook. Uma mulher, pelo jeito de escrever uma feminista, disse o seguinte:

“Fulano isso você já deve ter aprendido. Homem não tem o direito de discutir sobre o aborto”.

Minha primeira reação foi igual a de alguém que vê outra pessoa topando o dedão na quina da porta: uma mistura de riso involuntário e compacimento. Talvez tenha ficado um pouco surpreso também. É óbvio que ninguém minimamente inteligente diria isso a sério. Isso não serve nem mesmo como gracejo. Mas depois pensei melhor. Notei que a comentarista tinha certa razão. Não, é claro que ter opinião sobre o aborto não é privilégio de quem tem útero. O útero não é o órgão que nos dá a capacidade de encontrar a verdade. Contudo, ela tinha razão.

Ela tinha razão ao defender que nem todo mundo tem o direito de opinião sobre o aborto. Na verdade pode até ter uma opinião, mas ninguém precisa ligar para ela. A opinião de alguém sobre qualquer assunto vale tanto quanto o tempo de estudo sincero do problema, o que não é muito animador quando o assunto é aborto e quando a opinião é de um abortista. Pode parecer um pouco chocante, mas uma mãe de família, que já passou noites em claro com um bebê ardendo de febre tem mais autoridade para opinar sobre o assunto do que aquela jovem que sufragou o aborto após ler apenas um post sobre o assunto em um blog feminista.

É sabido que o aborto não é, por assim dizer, uma causa natural na nossa sociedade. A esmagadora maioria das pessoas sempre foi contra o aborto, como é em todo canto do mundo. A idéia do aborto é uma espécie de “vírus”, injetado por fundações estrangeiras que manobram no cenário nacional, buscando aqui e ali minar a resistência natural da sociedade. Dá para ver que todos os argumentos favoráveis ao aborto, todos eles, são só meras reproduções de slogans, estatísticas furadas e esquemas erísticos espalhados por ONGs abortistas. Logo, quando um defensor do aborto fala, ele não pensou sobre o assunto, não estudou nem gastou muito tempo meditando, mas apenas repete aquilo que está no seu roteiro. Há quem diga que se você reparar em um abortista falando é possível ver as linhas de marionete sendo puxadas para lá e para cá. Essa idéia mesma de que “homem não tem o direito de discutir aborto” talvez tenha surgido como estratégia para evitar as constantes e constrangedoras derrotas dos abortitas em debates públicos, o que não impede que toda feminista acredite nisso de verdade.

Então, aqui vem o ponto: por que deveríamos dar ouvidos a quem não sabe o que está falando? Se alguém consegue, com a ajuda daquela audácia que só a ignorância confere, dizer que a opinião sobre o aborto é proibida aos homens porque eles não tem útero, porque deveríamos continuar ouvindo?

Bom, você pode ser caridoso, se perceber que seu interlocutor defende o aborto mais por espírito de manada, para ser “cool”, moderno e mente aberta, e que ele na verdade não sabe nada sobre o assunto. Nesse caso talvez valha tentar um tratamento de choque: mostrar a realidade. Não preciso dizer que um aborto é sangrento, que os métodos e os resultados são violentos e não guardam nada da esterilidade polida da discussão dita intelectual a qual estamos acostumados. Já li em algum lugar que uma mulher que decidiu abortar geralmente desiste quando vê um ultrassom mostrando o bebê se mexendo. É isso que precisa ser feito: mostrar que aquela pinça vai destroçar um bebê, que o aspirador vai recolher os restos e que eles serão jogados no lixo, quando não retirarem os órgãos antes para venda. Mostrar que aquele bebê, caso aquilo não fosse feito, nasceria e poderia estar aqui conosco perdendo tempo na internet comentando frases de feministas sem noção.

“Ah, mas isso é muito pesado!”, poderia alguém no fundo da sala questionar. “Pode ser que as pessoas achem isso grosseiro”. Eu responderia que usar um Decapitador de Jacquemier é bem mais inapropriado (quem não tiver receio, pesquise: trata-se de um instrumento usado para decapitar o bebê). O aborto é isso. A culpa do embrulho no estômago não é nossa, mas dos abortistas. Não é um assunto que deva ser transfigurado por meio de eufemismos e figuras de linguagem em uma conversa que possa ser suficientemente inócua para o café da tarde. Não! Mostre aos abortistas aquilo que eles defendem na realidade, pois aquilo que eles defendem é horrível.

Então, sigamos o exemplo da nossa comentarista: não discuta aborto com abortistas. Eles não entendem o assunto e só estão ali servindo como caixa de ressonância de um movimento mundial. No lugar de discutir, mostre a realidade. Se a realidade não mudar a opinião do abortista, bata o pó das sandálias e deixe-o falando sozinho.

Por fim, nunca é demais pedir: reze. Hoje é a Festa da Imaculada Conceição de Maria Santíssima. Reze para que os abortistas enxerguem a realidade e se arrependam. Reze para que Deus poupe as milhões de vidas descartadas todo ano por causa do aborto. Uma “Ave Maria” só que seja.

Sumiram com o “aborto”

A Associação Nacional dos Defensores Públicos (ANADEP) ajuizou ação para que o Supremo Tribunal Federal permita o aborto de fetos com microcefalia causadas pela contaminação da mãe com o vírus Zika.

Trata-se do mais novo capítulo do assédio para liberar o aborto por meio de ativismo legal, seguindo os passos trilhados pela liberação do aborto de fetos anencéfalos (STF ADPF 54).

O mais interessante não é o ativismo legal em si, pois já sabemos que o front abortista saiu do campo legislativo, onde há grande resistência, para o campo judicial. O detalhe cruel é a omissão da palavra “aborto”, descrição exata da realidade, em favor de termos mais genéricos e neutros. O site da ANADEP omite o nome “aborto”, substituindo-o pelo anódino “interrupção da gestação”, de modo que o impacto da ação ou passe despercebido ou diminua a reação natural que qualquer pessoa tem diante do aborto.

A ANADEP conta com o auxílio de outra entidade, a ANIS – Instituto de Bioética, que ao menos em seu site chama o crime pelo nome. As duas entidades “argumentam que as gestantes com zika estão em situação de sofrimento psíquico”.

Não consegui cópia da petição, mas  retomo o assunto assim que ela aparecer.

 

Mentiras sobre o aborto

O aborto é a grande bandeira do mal. O contínuo sacrifício de vidas inocentes é a paródia demoníaca da graça redentora do Calvário. A ampliação de tanta maldade foi fruto de décadas de intensa campanha intelectual, social e jurídica, destinada sobretudo a mudar o ponto de vista generalizado sobre o aborto: de crime para direito. Por causa disso, não só aumentaram o número de abortos, mas também reduziu-se a sensibilidade da maioria das pessoas para aquilo que sempre foi evidente: aborto é assassinato de inocentes.

Em 2008, quando estava designado como juiz substituto para a 3ª Vara Criminal da Comarca de Natal, RN, analisei um caso no qual o Ministério Público pedia autorização para realização de um aborto de um feto com anencefalia. Além de denominar o aborto com o eufemismo “interrupção de gravidez”, chegou-se a insinuar que o aborto, naquela situação, deveria ser defendido por ser compatível com o “atual estágio dos direitos humanos”.

Essa afirmação já era o resultado da reformulação intelectual feita no Ocidente em torno do aborto. A ausência de uma imediata e generalizada reação de repugnância diante da contradição em tomar a destruição de uma vida indefesa também como um direito fundamental é uma proeza hipnótica incrível. Não pretendo traçar o roteiro completo de como chegamos nesse ponto, mas considero essencial tentar responder às mentiras gerais que circundam a idéia. A análise de cada uma dessas mentiras será objeto dos próximos posts e, eventualmente, se Deus permitir, serão reunidos no futuro em um volume único para consulta.