Blog

  • O que dizer da nova tradução de O Senhor dos Anéis?

    É natural reagir à mudança. Estranhamos quando mudamos de casa ou quando chega alguém novo no grupo de amigos. Foi assim quando anunciaram as novas traduções de o Senhor dos Anéis, apesar da qualidade gráfica da nova edição, muito superior à antiga, ter amenizado um pouco a desconfiança com a euforia estética. Mas os livros são iguais a casas, em que a tinta nova nas paredes e uma grama aparada não são suficientes para esconder os problemas na instalação elétrica ou para fazer sumir o entupimento da pia da cozinha.

    Foi o que aconteceu com a nova tradução. Uma edição gráfica caprichada, fontes bonitas, boas ilustrações e capa dura, mas que contém erros primários de tradução. Erros que turvam o brilho da novidade e transformam a leitura deste clássico em uma experiência menos extraordinária.

    A publicação de A Queda de Gondolin em 2018 e de O Silmarillion no começo de 2019 anteciparam alguns problemas da nova forma de traduzir Tolkien. Era a chegada de “orques” (orcs) e de “os anãos”. Desanimado, por muito tempo me neguei a comprar a nova edição de O Senhor dos Anéis, após seu lançamento no final de 2019. Mesmo depois de comprá-la, ela ficou guardada na estante, esperando.

    Estes dias, finalmente, resolvi abrir o livro. Quem sabe, depois de algum tempo, dar uma chance para a nova tradução? Para que? Unicamente para comprovar meu desapontamento e desânimo iniciais. Não consegui passar da primeira página, o famoso Verso do Anel, que inaugura a obra prima. É deprimente a falta de cuidado justamente com esse verso, pois ele causa uma impressão tremenda para quem vai ler o livro pela primeira vez. Ele dá o tom épico, transmite a beleza e o mistério da obra e faz com que o leitor queira ler a obra.

    Parece que o objetivo da nova tradução não foi corrigir e reformar os erros e omissões da versão anterior, mas de refazer tudo “do zero”. Um capricho, quem sabe? A novidade pela novidade. Não sei o motivo, mas talvez as reclamações por uma nova tradução tenham gerado, mesmo que involuntariamente, essa necessidade de se afastar da anterior até naquilo em que ela claramente acertava (e não era pouca coisa). A nova tradução começa errando na escolha das palavras, no ritmo e na estrutura geral do texto.

    Tendo minha leitura parado no Verso do Anel, por absoluta incapacidade de continuar, pode não parecer justo fazer uma crítica geral à nova tradução (embora ache que isso deva ser feito algum dia, caso eu consiga avançar na leitura), mas deixo aqui ao menos minhas impressões ao comparar o Verso do Anel na versão nova (2019) e na anterior (1994).

    Mas, primeiro, às versões:

    Texto Original:

    Three Rings for the Elven-kings under the sky,
    Seven for the Dwarf-lords in their halls of stone,
    Nine for Mortal Men doomed to die,
    One for the Dark Lord on his dark throne
    In the Land of Mordor where the Shadows lie.
    One Ring to rule them all, One Ring to find them,
    One Ring to bring them all and in the darkness bind them
    In the Land of Mordor where the Shadows lie.

    Tradução da edição brasileira de 1994:

    Três Anéis para os Reis Elfos sob este céu,
    Sete para os Senhores Anões em seus rochosos corredores,
    Nove para Homens Mortais, fadados ao eterno sono,
    Um para o Senhor do Escuro em seu escuro trono
    Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.
    Um Anel para a todos governar, Um Anel para encontrá-los,
    Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los
    Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.

    Tradução da edição brasileira de 2019:

    Três Anéis para os élficos reis sob o céu,
    Sete para os Anāos em recinto rochoso,
    Nove para os Homens, que a morte escolheu,
    Um para o Senhor Sombrio no espaldar tenebroso
    Na Terra de Mordor aonde a Sombra desceu.
    Um Anel que todos rege, Um Anel para achá-los,
    Um Anel que a todos traz para na escuridão atá-los
    Na Terra de Mordor aonde a Sombra desceu.

    Então, basta ler para perceber que a tradução nova quebra completamente o tom do Verso. Tenta simplificá-lo, mas acaba destruindo seu ritmo e o apelo poético original. O caráter épico é ofuscado por erros gramaticais e opções de gosto duvidoso.

    O primeiro verso usa “élficos reis” e com isso inverte a ênfase, o élfico vira um adjetivo para reis, além da sonoridade não ter ficado boa.

    No verso seguinte, omite-se que os anéis são dados aos senhores dos anões e, uma das pérolas da nova tradução, a palavra usada para designá-los é “anãos”, um uso pouco comum do plural de “anão” e que incomoda ao ouvido, não importando muito que tenha sido feito para tentar mimetizar o que Tolkien fez com Dwarven no lugar de Dwarfs. Para completar, o uso de “recinto rochoso” não reflete, de longe, a melhor escolha para “halls of stone”, já que suprime a grandiosidade do termo original. O que é um recinto rochoso? A princípio, qualquer local de Moria, até mesmo despensas e latrinas encaixam-se no termo. Não parece haver dúvida de que imaginar os Senhores dos Anões em seus Salões de Pedra tem melhor apelo do que pensar nos “anãos” em seus banheiros rochosos da nova tradução.

    No trecho seguinte, dedicado aos homens, a tradução de 2019 inova e dá outro sentido ao texto original, pois “doomed to die” é vertido para “que a morte escolheu”. O original dá a idéia de que os homens são destinados a morrer, ao passo que a nova tradução retira completamente esse aspecto de fatalismo e tragédia e dá um protagonismo estranho para a Sra. Morte. Essa inversão altera a visão cristã que o próprio Tolkien tinha de sua obra, intrincada mesmo que não ostensiva, na qual a morte é fruto d’A Queda, uma escolha dos homens carregada de um destino e não da Morte.

    Embora o verso seguinte talvez tenha acertado em usar Senhor Sombrio no lugar de Senhor do Escuro, falha miseravelmente ao denominar “dark throne” como “espaldar tenebroso”. Ora, espaldar não é nem propriamente uma cadeira, mas apenas a parte dela onde nos recostamos. O pior é que ninguém usa essa palavra correntemente e ela nem é comum a ponto de permitir que o leitor médio saiba o que ela significa e, portanto (socorro!), será necessário deixar o livro de lado e buscar um dicionário para saber o que é espaldar. A opção anterior era “um para o Senhor do Escuro em seu escuro trono”, que rimava com “eterno sono” do verso anterior e, por isso, tinha um ritmo muito melhor do que “Um para o Senhor Sombrio no espaldar tenebroso” que rima com o “recinto rochoso” (isso mesmo, os banheiros de Moria) de dois versos antes.

    O leitor novato já foi prejudicado, até agora, pela falta de fluidez do texto, pela possível alusão a um banheiro de pedra e pela necessidade de consultar um dicionário. Mas, por que parar por aí? No verso seguinte somos obrigados a ler “na Terra de Mordor aonde a Sombra desceu”. Incrível. O original é “In the Land of Mordor where the Shadows lie.” A idéia é que Mordor é a terra das sombras e reflete claramente um estado e não um movimento. O uso do advérbio “aonde” é uma espécie de soco no estomago, o correto seria “onde a sombra desceu” (o que está sendo lembrado neste exato momento pelo corretor automático do meu editor de textos), já que a sombra não está indo para lugar nenhum naquele momento e, portanto, não há idéia de deslocamento e movimento que autorizasse o uso de “aonde”. Essa escolha indica o descuido técnico com a tradução.

    Por fim, no verso seguinte há outra escolha estilística duvidosa: “Um Anel que todos rege”, pois o verbo reger geralmente não é conjugado de forma direta. “Um Anel que a todos rege” teria sido melhor para o ritmo e compreensão do texto. Além disso, ao usar “rege”, “achá-los” e “atá-los”, embora talvez possa haver alguma maior fidelidade ao original, há uma perda enorme de musicalidade e impacto em comparação com “governar”, “encontrá-los” e “aprisioná-los”.

    A leitura do Verso do Anel na tradução de 2019 causa uma péssima impressão. Quando a comparamos com a tradução anterior somos obrigados a concluir que houve uma perda imensa de qualidade. A tradução de 1994 era muito superior tanto na fidelidade à idéia do texto original quanto no tom, ritmo e poesia.

    É um sinal de alerta para a grande possibilidade de outros tantos erros de tradução serem descobertos durante a leitura completa do livro. Como experimento, proponho-me a, em algum futuro não tão próximo, escolher uma passagem aleatória do livro para fazer o mesmo tipo de comparação que fiz agora com o Verso do Anel e, com isso, ver como as coisas foram em um trecho de prosa. Quem sabe?

  • O incrível encontro de Raskólnikov com Frei Jacó

    Raskólnikov estava naquela taberna em que se entrava pela calçada, por uma escada que leva ao subsolo. Tinha acabado de chegar da sua visita à velha usurária. Estava angustiado e com aqueles pensamentos estranhos. Antes que ele pudesse bater a vista em Marmieládov, contudo, sua atenção foi para o outro lado. Mais tarde, lembrando-se desse momento, chegaria a atribuí-lo a um pressentimento. Ali, bem ao seu lado, estava um velho gordinho em um hábito de frade franciscano e estalando os dedos, como que chamando Raskólnikov. O velhinho, de cabelo branco, rareado ainda mais pela tonsura, e de bochechas salientes e rosadas sorria e encarava Raskólnikov como se o conhecesse.

    “Olá, meu rapaz!”, disse o frade. “Meu nome é Jacó, irmão Jacó, e não pude deixar de notar seu olhar aperreado quando você entrou. Se você deixar, gostaria de conversar com você, de forma bastante tranqüila e amigável, porque embora eu não seja lá de muito estudo, recebi um encargo que diz respeito a você. Permita-me perguntar, sem arrodeios, você está como que com uma pressão na cabeça, uma inquietação terrível e pensamentos abomináveis, não está?”. O frei tinha o sotaque levemente paraibano, o que em russo ficou até bem solene.

    “Como assim, quem é o senhor? E por que me faz tantas perguntas sem nem me conhecer?”, perguntou Raskólnikov pego de surpresa. “Meu nome é irmão Jacó, já disse. Sou um frade franciscano e gostaria apenas de um minuto para contar uma coisa que você precisa saber. Minha missão é urgente e você não vai se arrepender”, respondeu frei Jacó, bebendo um gole generoso de cerveja.

    O que seria isso? Perguntava-se Raskólnikov. Achava tudo muito estranho, pois não havia franciscanos em São Petersburgo. Todos haviam fugido na última perseguição. Ficou encarando o frade e tentando desvendar o que ele queria e de onde ele teria saído. Começou a ficar impaciente e a pressão em sua cabeça aumentou. Embora até estivesse mais disposto a conviver com as pessoas depois de um mês inteiro de isolamento e de melancolia, e por isso tinha vindo para a taberna, algo em seu íntimo dizia-lhe para se afastar daquele velhinho. Lembrou-se do estado de penúria em que estava, e de como as pessoas certamente não entenderiam os motivos pelos quais planejava….

    “Pode parar! Pode parar”, disse o frade, quebrando a cadeia de pensamentos de Raskólnikov. “Volte aqui para a terra, faça o favor. Pare de ficar pensando. De pensar morreu um burro, já dizia o Olavo de Carvalho!”, insistiu. “Quem é esse?”, perguntou Raskólnikov. “Deixa para lá, vamos, preciso falar com você e é melhor que seja lá em cima, ao ar livre”, respondeu frei Jacó.

    Saíram da taberna e foram até uma praça ali perto. Raskólnikov ia contrariado, cada vez mais impaciente. Quando chegaram no local, frei Jacó esperou um pouquinho para pegar ar, porque tinha ficado um pouco cansado.

    “Ave Maria, eu preciso voltar às minhas caminhadas. Estou só o pó. Pronto, agora escute”, disse o frei, depois de recuperar o fôlego. “Você está se sentido mal, angustiado e pensando um monte de besteiras que você não quer pensar, mas mesmo assim pensa. Já não consegue ter sossego e tenta dormir o dia todo para ver se esquece essas porcarias e se acalma. É ou não é?”, aumentou o tom de voz o frei, como quem já sabia de tudo. “É ou não é? Vai, desembucha, homem!”, falou o frei.

    “É, mas como você sabe?”, disse Raskólnikov. “Ah, conheço essas coisas. Estava acompanhando você faz um tempo, na rua, e percebi como você vez por outra torcia a cara, como quem tivesse tido um pensamento ruim, e com as mãos tentava espantar algum coisa para longe. Então você venha cá e me conte tudo”, disse o frei Jacó. Seu jeito de falar era o de um avô compreensivo mas impaciente. Aquilo deixou Raskólnikov momentaneamente intrigado, porque as coisas que ele dizia eram verdade.

    Depois de conversarem um tempo, e da resistência dar uma trégua, acabou contando tudo para o frei Jacó: suas idéias a respeito da classificação das pessoas, o período que ficou sem dinheiro, o abandono dos estudos, o quartinho onde se escondia por vários dias sem fazer nada, a fome e até a idéia macabra de assassinar a velha Aliena Ivánovna. Raskólnikov começou a chorar, não sabia o motivo. O frei Jacó olhou para ele e disse: “Agora preste atenção. O nome desse negócio que você tem é ansiedade, tristeza e depressão. O que aconteceu? O ‘cão’ veio e fez a festa. Não se preocupe, que tem cura, mas para isso você vai ter que fazer exatamente o que eu disser”.

    O frei tirou dos bolsos um papel e um frasco de comprimidos onde se lia em inglês StressTabs™ e entregou para Raskólnikov. “Aqui ó, pega. No papel está uma oração para Nossa Senhora, porque casos assim sérios é só com ela mesmo. E esses comprimidos são umas vitaminas. É coisa boa, vitaminas C, B1, B2, B6, B12, E e, principalmente, um monte de zinco, que é bom para gente estressada. Reze para Nossa Senhora e tome essas vitaminas. Uma vez por dia tome um banho de sol e se exercite ao ar livre. Não fique mais no quarto pensando besteira. Pare de tomar chá e café. No café-da-manhã coma ovos com toucinho, um monte de toucinho”.

    “Mas isso vai ajudar mesmo?, perguntou atônito Raskólnikov. “Oxe, é claro que vai. Agora deixe de frescura e faça isso por um mês. Eu passarei por aqui para ver você”, respondeu o frade. “Então tá”, respondeu Raskólnikov.

    Um mês. Nesse mês, apesar da mistura de credulidade e desconfiança, Raskólnikov seguiu a receita do frei. No começo, fez a oração para Nossa Senhora e a repetia o dia inteiro. No começo mecanicamente, mas com o passar do tempo, aumentou sua proximidade com a Santa Mãe de Deus, passando a fazer uma súplica intensa. No segundo dia sentiu sua cabeça aliviar. Um peso gigantesco havia sumido. Chorou de felicidade. Além disso, tomou as vitaminas todos os dias. Parou de tomar chá e café e arrumou uns copeques para comer ovos com toucinho no café-da-manhã. Nastácia achou exagero ele não tomar o chá que ela fazia com tanto gosto, mas não encrencou. Depois do café-da-manhã saia para tomar sol e caminhar nas margens do rio. Foi se sentindo melhor. Os pensamentos ruins ainda apareciam, aqui e acolá, mas não tomavam toda a atenção de Raskólnikov. Ele passou a observar mais as coisas e não apenas a meditar sobre suas próprias idéias.

    Um mês depois, bem certinho, frei Jacó chegava no apartamento. Havia uma carroça com os poucos pertences de Raskólnikov. Estava de mudança para uma morada melhor, perto de uma praça bem arborizada. Arrumara dois empregos e retomaria os estudos no próximo mês. Quando viu o frei chegando, abraçou-lhe com força e sorriu. “Obrigado, frei Jacó. Estou bem melhor”, disse Raskólnikov. “Ah, eu sabia que você ficaria bem. O capeta é sabido e aproveita essas fraquezas para espalhar maldade. Não pode ver um camarada ansioso que já mete idéias malucas nele. Você precisa se alimentar, tomar sol e ocupar a cabeça com coisas reais. E aqui ó, um Rosário para você rezar todo dia. A melhor coisa é caningar o cão com reza. Faça sempre essas duas coisas: cuide de seu corpo, alimentando-se bem e tomando sol, e da alma, rezando muito para que Deus mantenha você livre do mal”, falou o frei, entregando um terço de madeira com a imagem de Nossa Senhora gravada. Se despediram fraternalmente. Nunca mais Raskólnikov viu o frei Jacó e sempre que perguntava por franciscanos na cidade, recebia olhares de surpresa. No fundo ele sabia que se havia operado um milagre.

    E foi assim que Nossa Senhora, um frei cabido e algumas vitaminas salvaram Raskólnikov de passar oito anos sofrendo na Sibéria. Dizem que o capiroto ficou lá no apartamento apertado observando, cheio de raiva e despeito, sem poder fazer nada. Dona Aliena Ivánovna e a irmã continuam bem. Algum tempo depois Raskólnikov conheceu Sônia e se apaixonaram. Casaram, tiveram vários filhos e netos e morreram felizes quando já eram bem velhinhos.

    N.B. O texto foi escrito com o mais absoluto desdém pela reforma ortográfica. Além disso, publicado sem revisão. Qualquer canelada é só avisar.

  • Eleições da AMB – um convite à transparência

    É tempo de eleições na Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB).

    Em uma eleição passada, lançou-se como candidato a presidente um juiz também integrante da associação dos juízes para a democracia – AJD. Na época, esse fato não foi ressaltado adequadamente na campanha. A chapa por ele encabeçada foi vitoriosa. Posteriormente, esse presidente tomou decisões contrárias à opinião da magistratura em temas polêmicos, alinhando-se ao posicionamento da AJD e, portanto, falhando, em representar adequadamente todos os magistrados.

    Sendo o papel dos dirigentes da AMB representar os juízes dos mais diversos perfis, é necessário que os seus eleitores saibam quem eles são.

    Assim, para que na eleição de 2019 os juízes possam fazer uma avaliação correta dos candidatos é necessário que haja mais transparência. O fato de um candidato a cargo diretivo da AMB pertencer à AJD é de interesse de todos magistrados eleitores.

    Lanço, portanto, o seguinte convite para as chapas registradas: informar quais candidatos integrantes das chapas são também associados da AJD. Simples e objetivo. O convite é feito em nome da transparência e do respeito aos magistrados, que devem ser informados de tudo que é importante sobre quem pretende comandar a maior associação de juízes do país.

    Conto com a ajuda dos colegas para que esse convite chegue a todas as chapas e para que as informações prestadas sejam divulgadas a todos.

    #TransparênciaEleiçõesAMB

    Juiz Odinei Draeger

  • Conciliação, Judiciário e Ação Humana

    Leio no Consultor Jurídico que o Conselho Nacional de Justiça está promovendo um curso que busca “contribuir para a disseminação da cultura da conciliação no Judiciário Brasileiro”.

    Longe de dizer que a conciliação não é um meio efetivo para solução de um litígio, afinal uma decisão consensual entre os litigantes é, queiramos ou não, uma manifestação de dignidade individual em face do estado. O problema é justamente considerar a conciliação como ferramenta primária para solucionar o abarrotamento do judiciário. Não é possível que o meio mais eficiente para diminuir o acervo processual seja um apelo excessivo à conciliação. É justamente por inexistir consenso a respeito de determinado bem jurídico que o Judiciário foi provocado. Impor que as partes sejam compelidas a passar por uma fase obrigatória de conciliação, que necessariamente adiciona mais tempo ao processo, é tanto um erro estratégico quanto uma confissão da incapacidade do Judiciário em restabelecer a ordem jurídica violada.

    Ludwig von Mises, expoente da Escola Austríaca de Economia, em seu livro Ação Humana (disponível on-line aqui), um tratado de economia, diz:

    “O agente homem está ansioso para substituir uma situação menos satisfatória, por outra mais satisfatória. Sua mente imagina situações que lhe são mais propícias, e sua ação procura realizar esta situação desejada. O incentivo que impele o homem à ação é sempre algum desconforto” (pág. 37/38 da edição do Instituto Mises Brasil)

    Com as partes em litígio, vejam só, não é diferente do que acontece com todos os outros seres humanos: todos agem de modo a sair de uma situação de desconforto para uma situação de menos desconforto. O problema central do abarrotamento de processos e, conseqüentemente, da demora na solução do litígio, é que ele proporciona ao infrator da ordem jurídica, que deu causa ao problema, uma situação mais confortável do que o cumprimento de sua obrigação. A imposição cínica da conciliação como forma de abreviar o tempo do processo, e por incrível que pareça este é um dos argumentos centrais no apelo conciliatório, além de não resolver o problema do abarrotamento, dado que as condições de conforto que permitem a contínua criação de novos litígios permanece inalterada, gera uma injustiça material, pois na maioria das vezes, por causa de outro discurso padrão do apelo conciliatório: o de que numa conciliação ambas as partes devem ceder um pouco, aquele que teve seu direito violado deve se contentar em receber menos do que tinha direito.

    Resumo da ópera: quem tem seu direito violado enfrenta um demorado e custoso processo judicial, é assediado para que seja feita uma conciliação em termos menos favoráveis do que a própria satisfação da pretensão original, enquanto que aos violadores é imposta a pesada sanção de cumprir, com atraso considerável, o mesmo ou menos do que era devido inicialmente. Os violadores da ordem jurídica não enxergam nesse fato nada além de uma oportunidade de aumentar seu conforto pelo não cumprimento de suas obrigações e, na falta de um padrão de moralidade comum que imponha naturalmente o seu cumprimento, a única solução para compelir os violadores a evitar que o problema chegue no Judiciário, diminuindo a demanda, é conseguir que não só os processos andem em prazos razoáveis, mas principalmente que ao final o violador da ordem jurídica tenha uma situação bem mais desconfortável do que aquela que ele teria se cumprisse seus deveres.

    ***

    *Texto publicado originalmente em 2012 no Blog Direito e Liberalismo. O texto aqui foi levemente alterado para melhorar a compreensão.

  • O CNJ e o semáforo na rotatória

    semaforo

    A esmagadora maioria dos juízes do Brasil possui, por diversos fatores, mais processos do que consegue dar conta, o que gera demora para que as causas sejam julgadas. O juiz precisa equilibrar seu tempo com julgamentos de casos de corrupção, violações do direito do consumidor, demandas de saúde, crimes violentos e combate às organizações criminosas. Em um processo judicial é necessário que o juiz tenha atenção e cuidado na análise das provas, medite sobre os argumentos de cada parte e profira suas decisões com imparcialidade. A morosidade processual é um obstáculo para isso, pois a quantidade excessiva de processos que cada juiz precisa resolver diminui a margem de tempo dedicado a cada um deles e aumenta o tempo de andamento geral dos processos.

    O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), por sua vez, foi criado para controlar o Judiciário e uniformizar a atuação dos juízes e tribunais em todo território nacional. Uma das desculpas dadas para a criação do Conselho foi a necessidade de racionalizar a atuação do Judiciário. Assim, desde sua criação surgiu uma quantidade avassaladora de regulamentos, resoluções, sistemas, formulários estatísticos, bancos de dados e outras ferramentas administrativas.

    A interferência trazida pelos seus mais de 2.330 atos normativos (resoluções, provimentos, portarias, recomendações etc.) gera um impacto imenso aos juízes e tribunais, que são obrigados a pautar sua atuação pelas diretrizes centralizadas do Conselho, cumprir suas metas, priorizar os processos por ele indicados, preencher inúmeros relatórios, alimentar e cuidar de vários bancos de dados e cadastros. Além disso, o Conselho impõe atos típicos de jurisdição, como a criação das famigeradas audiências de custódia, a imposição de participação em mutirões carcerários, adesão a semanas de conciliação e outras semanas temáticas.

    Se pensarmos um pouco, há um claro erro de estratégia nisso tudo. O tempo do juiz, um servidor público extremamente caro, é gasto na burocracia criada por um órgão que fica longe dos problemas reais enfrentados nos fóruns. Para um juiz que cuida de uma média de 4000 processos, a perda de tempo gerada pelas exigências burocráticas é escandalosa.

    Por exemplo, todo ano o Conselho impõe às varas de infância e juventude a realização de audiências em todos processos de crianças e adolescentes acolhidos – as chamadas audiências concentradas -, independentemente da situação processual real dos acolhidos. Na hipótese de todas as crianças estarem acolhidas aguardando adoção, não há necessidade de audiência para reavaliar o acolhimento, mas há necessidade de concentração dos esforços na busca por adotantes. Essa decisão simples de privilegiar a busca por adotantes em vez de realizar uma inócua audiência concentrada é impedida pela diretriz centralizada que manda fazer duas audiências dessas por ano, desperdiçando assim recursos públicos e tempo.

    Um fato que aconteceu comigo recentemente serve de ilustração. No final da avenida aqui perto de onde moro há uma rotatória. Quando saio de manhã para o trabalho há um grande fluxo de carros por esta avenida e, às vezes, os carros vão se acumulando na rotatória. De vez em quando acontecia um acidente. Pensando nisso, há uns meses atrás o departamento de trânsito resolveu instalar um semáforo. O departamento tinha a melhor das intenções: organizar o trânsito e evitar acidentes. A consequência imediata foi o aumento de até três vezes no tamanho do congestionamento nas proximidades da rotatória. A reclamação dos motoristas foi tanta que decidiram tirar o semáforo da rotatória, fazendo com que o trânsito voltasse a fluir melhor.

    O planejamento centralizado do CNJ é como um semáforo numa rotatória. Os motoristas em uma rotatória têm uma compreensão mais ajustada da velocidade, do conjunto de carros, do tempo certo necessário para transpor a rotatória, dos momentos exatos nos quais se deve acelerar e quando frear. Quando a autoridade central instala um semáforo na rotatória, racionalizando o fluxo dos carros por meio de uma diretriz padrão, todas essas nuances percebidas somente pelo motorista são perdidas. Ele vai ficar esperando pela luz verde, não importa se do outro lado não haja ninguém passando. O trânsito ficará aparentemente mais organizado, mas também insuportavelmente lento.

    Os juízes são como esses motoristas. Eles é que conhecem os processos, sabem quais as causas mais urgentes, as mais fáceis de resolver, as que podem ser objeto de conciliação, quais atividades devem ser direcionadas para quais servidores. Quando o CNJ centraliza as decisões administrativas ele se transforma no semáforo instalado na rotatória, cerceando as pequenas decisões do dia-a-dia que permitem ajustar os recursos e o tempo de trabalho para que o funcionamento das varas seja otimizado. Quando o juiz perde várias horas por semana para preencher relatórios desnecessários ou tratar de questões puramente burocráticas criadas pelo Conselho, aquelas horas são retiradas do mesmo tempo que ele dispõe para estudar e julgar as causas.

    Assim como uma economia não pode ser planejada de forma centralizada, como comprova o fracasso reiterado dos experimentos socialistas, também a gestão do Judiciário não pode se submeter a um planejamento centralizado, pois o cálculo da maior eficiência das ações a serem tomadas necessita de informações que somente estão disponíveis no local em que os processos tramitam, isto é, junto com o juiz da causa.

    Por isso é preciso um pouco de cuidado ao retirar a independência dos juízes na condução de seus processos e nas decisões sobre a melhor forma de enfrentar seu acervo. Pode ser que o cumprimento das metas e demais exigências do CNJ acabe por transformar o Judiciário numa rotatória com um semáforo: racional, organizado, ineficiente e lento.