Coragem!

Imagine que você está em uma terra sitiada por um monstruoso exército, seus aliados estão longe e alguns deles acabaram de passar para o lado do inimigo. Era essa a situação descrita no “Senhor dos Anéis”, quando as forças de Sauron e Saruman convergiam para destruir e subjugar o mundo. O Mal se preparava para assaltar Minas Tirith, a principal fortaleza do Reino de Gondor e, nessa hora, Gandalf encontra alguns guerreiros reconstruindo uma muralha e, depois de trocar algumas palavras, dá um conselho valioso: “A coragem será agora sua melhor defesa contra a tempestade que se aproxima – essa é a única esperança que trago. Abandonem suas trolhas e afiem suas espadas”.

Quem conhece a história sabe que o conselho era quase insano. As forças do mal eram terríveis e muito mais numerosas, as defesas estavam em péssimo estado e os aliados estavam cansados e longe dali. A verdade é que não havia esperança. Não muita, pelo menos. O que então dizer dos conselhos do sábio que manda largar tudo e afiar as espadas? A coragem proposta por Gandalf é loucura e, no entanto, a única esperança pois toda a esperança já acabou.

Os textos do Senhor dos Anéis estão cheios dessas alusões a um tipo de coragem diferente. Não é a coragem do comandante que avalia a superioridade de suas forças e então age, que é na verdade a coragem de Sauron, mas é a coragem desesperada daquele que luta sabendo que não vencerá, mas lutar é a única coisa certa a se fazer.

Podemos traçar um paralelo entre a ficção e o nosso momento atual. Tolkien já dizia nas cartas que escrevia para o filho que havia muitos Orcs no mundo, e que na vida real as coisas não tinham contornos tão claros quanto nas histórias. Os Orcs reais não são criaturas desfiguradas, feias e sujas, facilmente identificados pelo terror de sua aparência. É claro que não. Contudo, eles têm as idéias igualmente deformadas e, assim como seus parentes literários, agem em bandos tentando destruir o que sobrou da Civilização.  Quando lemos a indecorosa defesa do aborto, as campanhas difamatórias contra a Igreja, as iniciativas de engenharia social nas novelas, a perseguição às famílias, a tentativa de destruir noções básicas da realidade ainda na infância por meio da educação estatal, em todos esses sinais parece que o mal trabalha com vasto poder e sucesso.

Assim, nossa ruína não é vista nas pedras desgastadas e amplos espaços vazios abandonados, mas nos arranjos vistosos e barulhentos que camuflam o vazio e o mal modernos como se fosse um verniz. Os Orcs modernos estão entre nós. É nesse ambiente que o conselho de Gandalf deve ecoar: “Coragem é a melhor defesa!”.

Lutemos, mesmo sem esperança de vitória neste mundo. Primeiro porque nosso destino aqui é compartilhado. O mal atinge a todos e mesmo o mais isolado rincão, onde alguma paz ainda se conserve, mais cedo ou mais tarde será alcançado. Como disse Barbárvore enquanto marchava contra Isengard: “É claro, é muito provável, meus amigos, que estejamos indo ao encontro de nosso destino: a última marcha dos ents. Mas se ficássemos em casa sem fazer nada o destino nos encontraria de qualquer jeito, mais cedo ou mais tarde”.

Em segundo lugar, e mais importante: nossas ações devem refletir não a busca de soluções definitivas para este mundo, que desde a Queda está corrompido e defeituoso, mas devem ser orientadas para a Eternidade. A esperança real está no Céu, não neste mundo, e todo empenho aqui deve ter essa realidade transcendental por meta e caso algum bem advenha dessa luta, tanto melhor.

É esse o valioso conselho de Gandalf na última reunião antes de enfrentarem Sauron diante dos portões de Mordor: “não é nossa função controlar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que pudermos para socorrer os tempos em que estamos inseridos, erradicando o mal dos campos que conhecemos, para que aqueles que viverem depois tenham terra limpa para cultivar. Que tempo encontrarão não é nossa função determinar”.

Então façamos o que está ao nosso alcance e lutemos com as forças que tivermos, mesmo que não haja nenhuma esperança, pois Deus gosta de nos ver lutar, a despeito de todas adversidades e perigos. Sejamos corajosos e esperemos que Ele nos conceda, por sua misericórdia, uma pequena medida de paz e tranquilidade aqui neste mundo, não por nosso mérito ou por ser nosso objetivo, mas como resultado por termos sido corajosos e lutado o bom combate.

***

Publicado originalmente na Revista O Coyote, em maio de 2015

2 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: