
É natural reagir à mudança. Estranhamos quando mudamos de casa ou quando chega alguém novo no grupo de amigos. Foi assim quando anunciaram as novas traduções de o Senhor dos Anéis, apesar da qualidade gráfica da nova edição, muito superior à antiga, ter amenizado um pouco a desconfiança com a euforia estética. Mas os livros são iguais a casas, em que a tinta nova nas paredes e uma grama aparada não são suficientes para esconder os problemas na instalação elétrica ou para fazer sumir o entupimento da pia da cozinha.
Foi o que aconteceu com a nova tradução. Uma edição gráfica caprichada, fontes bonitas, boas ilustrações e capa dura, mas que contém erros primários de tradução. Erros que turvam o brilho da novidade e transformam a leitura deste clássico em uma experiência menos extraordinária.
A publicação de A Queda de Gondolin em 2018 e de O Silmarillion no começo de 2019 anteciparam alguns problemas da nova forma de traduzir Tolkien. Era a chegada de “orques” (orcs) e de “os anãos”. Desanimado, por muito tempo me neguei a comprar a nova edição de O Senhor dos Anéis, após seu lançamento no final de 2019. Mesmo depois de comprá-la, ela ficou guardada na estante, esperando.
Estes dias, finalmente, resolvi abrir o livro. Quem sabe, depois de algum tempo, dar uma chance para a nova tradução? Para que? Unicamente para comprovar meu desapontamento e desânimo iniciais. Não consegui passar da primeira página, o famoso Verso do Anel, que inaugura a obra prima. É deprimente a falta de cuidado justamente com esse verso, pois ele causa uma impressão tremenda para quem vai ler o livro pela primeira vez. Ele dá o tom épico, transmite a beleza e o mistério da obra e faz com que o leitor queira ler a obra.
Parece que o objetivo da nova tradução não foi corrigir e reformar os erros e omissões da versão anterior, mas de refazer tudo “do zero”. Um capricho, quem sabe? A novidade pela novidade. Não sei o motivo, mas talvez as reclamações por uma nova tradução tenham gerado, mesmo que involuntariamente, essa necessidade de se afastar da anterior até naquilo em que ela claramente acertava (e não era pouca coisa). A nova tradução começa errando na escolha das palavras, no ritmo e na estrutura geral do texto.
Tendo minha leitura parado no Verso do Anel, por absoluta incapacidade de continuar, pode não parecer justo fazer uma crítica geral à nova tradução (embora ache que isso deva ser feito algum dia, caso eu consiga avançar na leitura), mas deixo aqui ao menos minhas impressões ao comparar o Verso do Anel na versão nova (2019) e na anterior (1994).
Mas, primeiro, às versões:
Texto Original:
Three Rings for the Elven-kings under the sky,
Seven for the Dwarf-lords in their halls of stone,
Nine for Mortal Men doomed to die,
One for the Dark Lord on his dark throne
In the Land of Mordor where the Shadows lie.
One Ring to rule them all, One Ring to find them,
One Ring to bring them all and in the darkness bind them
In the Land of Mordor where the Shadows lie.
Tradução da edição brasileira de 1994:
Três Anéis para os Reis Elfos sob este céu,
Sete para os Senhores Anões em seus rochosos corredores,
Nove para Homens Mortais, fadados ao eterno sono,
Um para o Senhor do Escuro em seu escuro trono
Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.
Um Anel para a todos governar, Um Anel para encontrá-los,
Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los
Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.
Tradução da edição brasileira de 2019:
Três Anéis para os élficos reis sob o céu,
Sete para os Anāos em recinto rochoso,
Nove para os Homens, que a morte escolheu,
Um para o Senhor Sombrio no espaldar tenebroso
Na Terra de Mordor aonde a Sombra desceu.
Um Anel que todos rege, Um Anel para achá-los,
Um Anel que a todos traz para na escuridão atá-los
Na Terra de Mordor aonde a Sombra desceu.
Então, basta ler para perceber que a tradução nova quebra completamente o tom do Verso. Tenta simplificá-lo, mas acaba destruindo seu ritmo e o apelo poético original. O caráter épico é ofuscado por erros gramaticais e opções de gosto duvidoso.
O primeiro verso usa “élficos reis” e com isso inverte a ênfase, o élfico vira um adjetivo para reis, além da sonoridade não ter ficado boa.
No verso seguinte, omite-se que os anéis são dados aos senhores dos anões e, uma das pérolas da nova tradução, a palavra usada para designá-los é “anãos”, um uso pouco comum do plural de “anão” e que incomoda ao ouvido, não importando muito que tenha sido feito para tentar mimetizar o que Tolkien fez com Dwarven no lugar de Dwarfs. Para completar, o uso de “recinto rochoso” não reflete, de longe, a melhor escolha para “halls of stone”, já que suprime a grandiosidade do termo original. O que é um recinto rochoso? A princípio, qualquer local de Moria, até mesmo despensas e latrinas encaixam-se no termo. Não parece haver dúvida de que imaginar os Senhores dos Anões em seus Salões de Pedra tem melhor apelo do que pensar nos “anãos” em seus banheiros rochosos da nova tradução.
No trecho seguinte, dedicado aos homens, a tradução de 2019 inova e dá outro sentido ao texto original, pois “doomed to die” é vertido para “que a morte escolheu”. O original dá a idéia de que os homens são destinados a morrer, ao passo que a nova tradução retira completamente esse aspecto de fatalismo e tragédia e dá um protagonismo estranho para a Sra. Morte. Essa inversão altera a visão cristã que o próprio Tolkien tinha de sua obra, intrincada mesmo que não ostensiva, na qual a morte é fruto d’A Queda, uma escolha dos homens carregada de um destino e não da Morte.
Embora o verso seguinte talvez tenha acertado em usar Senhor Sombrio no lugar de Senhor do Escuro, falha miseravelmente ao denominar “dark throne” como “espaldar tenebroso”. Ora, espaldar não é nem propriamente uma cadeira, mas apenas a parte dela onde nos recostamos. O pior é que ninguém usa essa palavra correntemente e ela nem é comum a ponto de permitir que o leitor médio saiba o que ela significa e, portanto (socorro!), será necessário deixar o livro de lado e buscar um dicionário para saber o que é espaldar. A opção anterior era “um para o Senhor do Escuro em seu escuro trono”, que rimava com “eterno sono” do verso anterior e, por isso, tinha um ritmo muito melhor do que “Um para o Senhor Sombrio no espaldar tenebroso” que rima com o “recinto rochoso” (isso mesmo, os banheiros de Moria) de dois versos antes.
O leitor novato já foi prejudicado, até agora, pela falta de fluidez do texto, pela possível alusão a um banheiro de pedra e pela necessidade de consultar um dicionário. Mas, por que parar por aí? No verso seguinte somos obrigados a ler “na Terra de Mordor aonde a Sombra desceu”. Incrível. O original é “In the Land of Mordor where the Shadows lie.” A idéia é que Mordor é a terra das sombras e reflete claramente um estado e não um movimento. O uso do advérbio “aonde” é uma espécie de soco no estomago, o correto seria “onde a sombra desceu” (o que está sendo lembrado neste exato momento pelo corretor automático do meu editor de textos), já que a sombra não está indo para lugar nenhum naquele momento e, portanto, não há idéia de deslocamento e movimento que autorizasse o uso de “aonde”. Essa escolha indica o descuido técnico com a tradução.
Por fim, no verso seguinte há outra escolha estilística duvidosa: “Um Anel que todos rege”, pois o verbo reger geralmente não é conjugado de forma direta. “Um Anel que a todos rege” teria sido melhor para o ritmo e compreensão do texto. Além disso, ao usar “rege”, “achá-los” e “atá-los”, embora talvez possa haver alguma maior fidelidade ao original, há uma perda enorme de musicalidade e impacto em comparação com “governar”, “encontrá-los” e “aprisioná-los”.
A leitura do Verso do Anel na tradução de 2019 causa uma péssima impressão. Quando a comparamos com a tradução anterior somos obrigados a concluir que houve uma perda imensa de qualidade. A tradução de 1994 era muito superior tanto na fidelidade à idéia do texto original quanto no tom, ritmo e poesia.
É um sinal de alerta para a grande possibilidade de outros tantos erros de tradução serem descobertos durante a leitura completa do livro. Como experimento, proponho-me a, em algum futuro não tão próximo, escolher uma passagem aleatória do livro para fazer o mesmo tipo de comparação que fiz agora com o Verso do Anel e, com isso, ver como as coisas foram em um trecho de prosa. Quem sabe?

